Está Certo de que gosta de Spurgeon? (Are You Sure You Like Spurgeon?)
Por Alan Maben
“A mesma doutrina da
justificação, como pregada por um Arminiano, não é outra senão a doutrina da
salvação pelas obras...” - C. H. Spurgeon
Honrado por muitos
evangélicos como um grande pregador, Charles H. Spurgeon é considerado um
exemplo bem sucedido e “seguro” de um ministério “não-teológico”. Suas obras
são recomendadas como meio para conduzir a muitos pastores aspirantes no
desenvolvimento de seus próprios ministérios bem-sucedidos. Suas "Lições
aos Meus Alunos" são frequentemente usadas para este propósito,
enfatizando o aspecto “prático” do evangelismo. Porém, ainda que a forma da
pregação bem-sucedida de Spurgeon seja frequentemente estudada pelos
pretendentes ao pastorado, o conteúdo da pregação e ensino deste gigante
cristão é frequentemente ignorado. Antes, é popularmente pensado que Spurgeon
aprovou energicamente a mesma teologia que está atualmente dominando a cultura
Americana: o Arminianismo.
Por exemplo, muitos
líderes cristãos gostam de apontar Spurgeon como um que não teve treinamento
formal universitário. Eles ignoram o fato que ele teve uma biblioteca pessoal
contendo mais de 10.000 livros. Além disso, é argumentado que o sucesso de seu
ministério desde meados até os fins do século 19 foi devido a sua piedade
anti-intelectual, “sua rendição ao Espírito”, e a seu Arminianismo. O fato é
que Spurgeon não era anti-intelectual, nem tampouco alegava ilusões de ser tão
santo que podia permitir Deus operar se tão somente estivesse “rendido”. Mais
importante ainda, ele não era um Arminiano. Ele era um Calvinista sólido que se
opôs à perspectiva religiosa dominante de seu tempo (e do nosso), o
Arminianismo. Ainda quase no fim de sua vida ele pôde escrever: “Dessa doutrina
não me afastei até o dia de hoje”. Ele estava grato por nunca ter vacilado de
seu Calvinismo. “Não há nenhuma alma vivente que creia mais firmemente nas
doutrinas da graça do que eu...” Lendo as crenças de Spurgeon, qualquer um verá
que este tremendamente frutífero ministério foi edificado sobre a pregação do
evangelho bíblico.
Em sua obra, “Uma Defesa
do Calvinismo”, ele declara inequivocadamente:
"Eu pessoalmente
acredito que não seja possível pregar a Cristo e Ele crucificado, a menos que
estejamos pregando o que hoje é conhecido como Calvinismo. O Calvinismo é
apenas um apelido; o Calvinismo é o evangelho e nada mais. Eu não creio que
possamos pregar o evangelho se não pregarmos a justificação pela fé sem obras,
nem podemos pregá-lo, a menos que preguemos a soberania de Deus em Sua
dispensação de graça, nem a menos que exaltemos o amor imutável, eterno,
eletivo e conquistador de Jeová. Eu também não acredito que possamos pregar o
evangelho, a menos que nos baseemos na redenção especial e particular do povo
eleito de Deus, redenção essa efetuada por Cristo na cruz; nem tampouco
compreendo um evangelho que permita que os santos venham a cair depois de terem
sido chamados, e admita que os filhos de Deus sejam queimados no fogo da condenação”.
Aqui Spurgeon afirma seu
acordo com o que são usualmente chamados “Os Cinco Pontos do Calvinismo”. O
próprio resumo de Spurgeon era muito mais curto: Um Calvinista crê que a
salvação é do Senhor. As seleções de seus sermões e escritos sobre estes temas
evidenciam sua posição.
Com respeito à Depravação Total e à Graça Irresistível:
Quando dizes: “Pode Deus fazer com que eu me converta em um Cristão?” Te digo que sim, pois nisto descansa o poder do evangelho. Não pede teu consentimento, mas o obtêm. Não diz: “Quer ter isto?”, mas te faz disposto no dia do poder de Deus...O evangelho não quer teu consentimento, ele o obtêm. Põe fora de combate a inimizade de teu coração. Tu dizes, não quero ser salvo; Cristo diz que tu serás. Ele faz que nossas próprias vontades mudem de parecer, e então você clama: “Senhor, salva-me ou pereço!”.
Quando dizes: “Pode Deus fazer com que eu me converta em um Cristão?” Te digo que sim, pois nisto descansa o poder do evangelho. Não pede teu consentimento, mas o obtêm. Não diz: “Quer ter isto?”, mas te faz disposto no dia do poder de Deus...O evangelho não quer teu consentimento, ele o obtêm. Põe fora de combate a inimizade de teu coração. Tu dizes, não quero ser salvo; Cristo diz que tu serás. Ele faz que nossas próprias vontades mudem de parecer, e então você clama: “Senhor, salva-me ou pereço!”.
Com respeito à Eleição Incondicional:
Não hesito em dizer que, depois da doutrina da crucificação e ressurreição de nosso bendito Senhor, nenhuma doutrina teve tal proeminência na Igreja Primitiva como a doutrina da eleição da graça. E quando foi confrontado com o desconforto que esta doutrina poderia provocar, respondeu com pouca simpatia: “'Eu não gosto disto [eleição divina]', disse alguém. Bem, pensei que não gostaria; quem sonhou que gostaria?”.
Não hesito em dizer que, depois da doutrina da crucificação e ressurreição de nosso bendito Senhor, nenhuma doutrina teve tal proeminência na Igreja Primitiva como a doutrina da eleição da graça. E quando foi confrontado com o desconforto que esta doutrina poderia provocar, respondeu com pouca simpatia: “'Eu não gosto disto [eleição divina]', disse alguém. Bem, pensei que não gostaria; quem sonhou que gostaria?”.
Com respeito à Expiação Particular:
Se fosse a intenção de
Cristo o salvar todos os homens, quão deploravelmente Ele tem sido
decepcionado, pois temos Seu próprio testemunho de que existe um lago que arde
com fogo e enxofre, e nesse abismo de aflição tem sido lançadas as mesmas
pessoas que, de acordo com a teoria da redenção universal, foram compradas com
Seu sangue.
Ele castigou a Cristo,
por que deveria Ele castigar duas vezes por uma ofensa ? Cristo foi morto por
todos os pecados de Seu povo, e se estás no pacto, és um dos do povo de Cristo.
Não podes ser condenado. Não podes sofrer por teus pecados. Até que Deus possa
ser injusto, e demandar dois pagamentos por uma dívida, Ele não pode destruir a
alma por quem Jesus morreu.
Com respeito à Perseverança dos Santos:
Não sei como algumas
pessoas, as quais creem que um cristão pode cair da graça, conseguem ser
felizes. Deve ser algo mui recomendável nelas, o ser capaz de viver todo um dia
sem desesperação. Se não cresse na doutrina da perseverança final dos santos,
penso que seria o mais miserável de todos os homens, porque me faltaria o
fundamento para o repouso.
As seleções acima citadas indicam que C.H. Spurgeon era sem nenhuma dúvida um
afirmado e auto-professante Calvinista, que fez o sucesso de seu ministério
depender desta verdade, não disposto a considerar os “Cinco Pontos do
Calvinismo” como categorias separadas e estéreis para serem memorizados e
cridos em isolamento um do outro, ou da Escritura. Ele frequentemente combinava
as verdades representadas pelos Cinco Pontos, porque são na realidade parte de
apoio mútuo de um todo, e não cinco pequenas seções da fé adicionadas à coleção
pessoal de crenças cristãs. Spurgeon nunca as apresentou como raridades para
serem cridas como a soma do Cristianismo. Antes, ele pregou um evangelho
positivo, sempre tendo em conta que estas crenças eram somente parte de todo o
conselho de Deus e não a soma total. Estes pontos eram sumários úteis,
defensivos, porém eles não tomavam o lugar do vasto teatro da redenção dentro
do qual o plano completo e eternal de Deus foi realizado no Antigo e Novo
Testamento.
Certo de que a Cruz era
uma ofensa e uma pedra de tropeço, Spurgeon estava pouco disposto a fazer o
evangelho mais aceitável para o perdido. “A antiga verdade que Calvino pregou,
que Agostinho pregou, é a verdade que eu devo pregar hoje, se não seria falso à
minha consciência e a Deus. Não posso modelar a verdade; não conheço tal coisa
como aparar as bordas duras de uma doutrina”. Em outro lugar ele desafiou: “Eu
não posso encontrar na Escritura alguma outra doutrina do que esta. Ela é a
essência da Bíblia... Diga-me qualquer coisa contrária a esta verdade e isto
será uma heresia...” Spurgeon cria que o preço do ridículo e a rejeição não era
tão alto para que ele recusasse pregar este evangelho: “Somos reconhecidos como
a escória da criação; dificilmente algum ministro nos considera ou fala de
maneira favorável de nós, porque sustentamos fortes rivalidades acerca da
divina soberania de Deus, Suas eleições divinas e Seu amor especial para com
Seu próprio povo”.
Então, como agora, a
objeção dominante a tal pregação era que levaria a um viver licencioso. Visto
que Cristo “fez tudo”, não havia necessidade para eles de obedecer aos
mandamentos da Escritura. À parte do fato de que não devemos deixar que as
pessoas pecaminosas decidam que tipo de evangelho pregaremos, Spurgeon tinha
suas próprias refutações a esta confusão:
“Frequentemente é dito
que as doutrinas que cremos têm uma tendência de nos levar ao pecado... Pergunto
ao homem que se atreve a dizer que o Calvinismo é uma religião licenciosa: o
que pensas do caráter de Agostinho, ou de Calvino, ou de Whitefield, os quais
nas idades sucessivas foram os grandes expoentes dos sistemas da graça?; ou o
que dirá dos Puritanos, cujas obras estão cheias delas? Se um homem tivesse
sido um Arminiano naqueles dias, teria sido considerado como o mais vil dos
hereges, mas agora nós somos vistos como os hereges, e eles como ortodoxos. Nós
temos voltado à velha escola; nós podemos traçar nossa descendência desde os
apóstolos...Nós podemos traçar uma linha dourada até o próprio Jesus Cristo,
através de uma santa sucessão de poderosos pais, os quais todos sustentaram
estas verdades gloriosas; e podemos perguntar com respeito a eles: Onde tu
encontrarás homens mais santos e melhores no mundo?”
Sua atitude para com
aqueles que distorciam o evangelho com suas próprias ideias de “santidade” é clara
a partir do seguinte: “Nenhuma doutrina está tão calculada para preservar a um
homem do pecado como a doutrina da graça de Deus. Aqueles que têm chamado-a de
'uma doutrina licenciosa" não conhecem absolutamente nada dela. Pobres
seres ignorantes, pouco sabem que seu próprio produto vil foi a mais licenciosa
doutrina debaixo do Céu”.
De acordo com Spurgeon
(e também com a Escritura), a resposta de gratidão é o motivo para o viver
santo, não o status incerto do crente sob a influência do Arminianismo e seu
acompanhante legalismo. “A tendência do Arminianismo é para o legalismo; não é
nada senão o legalismo que jaz na raiz do Arminianismo”. Ele foi muito claro
sobre a perigosa relação do Arminianismo com o legalismo: “Não vês de uma vez
que isto é legalismo - que isto é fazer nossa salvação dependente de nossa obra
- que isto é fazer nossa vida eterna depender de algo que nós fazemos? Além
disso, a mesma doutrina da justificação, tal como é pregado por um Arminiano,
não é outra senão a doutrina da salvação pelas obras”.
Um status diante de Deus
baseado em como “usamos” Cristo e o Espírito para simular justiça foi um
legalismo odiado por Spurgeon. Como em nossos dias, Spurgeon viu que uma das
fortalezas do Arminianismo incluía as igrejas independentes. O Arminianismo era
uma religião natural, que rejeitava a Deus, que se auto-exalta e além do mais,
uma heresia. Como Spurgeon cria, nascemos Armianos por natureza. Ele viu esta
aversão natural a Deus como encorajada por uma crença auto-centrada e uma
fantasia auto-exaltadora. “Se você crê que tudo depende do livre arbítrio do
homem, você naturalmente terá o homem como a principal figura em seu panorama”.
E novamente ele afirma que o remédio para esta confusão é a verdadeira doutrina.
“Creio que muito do atual Arminianismo é simplesmente a ignorância da doutrina
do evangelho”. E mais, “Não sirvo ao deus dos arminianos de modo algum; não
tenho nada com ele, e não me inclino diante do Baal que eles têm erigido; ele
não é meu Deus, nem jamais o será; não o temo, não tremo em sua presença... O
Deus que diz hoje e que nega o dito amanhã, que justifica hoje e que condena no
dia seguinte, não tem nenhuma relação com meu Deus, nem no mínimo grau
possível. Ele pode ter uma relação com Astarote ou Baal, porém Jeová nunca foi
ou pode ser seu nome”. Recusando-se de comprometer o evangelho de alguma
maneira, ele refutou e rechaçou vigorosamente os intentos comuns de unir o
Calvinismo e o Arminianismo em uma crença sintetizada. Tampouco ele subestimava
a importância das diferenças entre os dois sistemas:
“Isto pode parecer a ti
de pouca consequência, porém realmente é um assunto de vida ou morte. Desejo
suplicar a cada cristão - querido irmão, reflita sobre o assunto
ponderadamente. Quando alguns de nós pregamos o Calvinismo, e outros o
Arminianismo, não podemos ambos estar corretos; não é útil tratar de pensar que
podemos ambos estar corretos - 'Sim', e 'não', não podem ambos ser verdade. A
verdade não vacila como o pêndulo que se move para frente e para trás... Um
deve estar certo; o outro errado”.
Traduzido
por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT,
11 de Abril de 2003



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