CRISTO DESPERTA TEMOR, AMOR E ESPERANÇA.




Por  Robert Murray M´Cheyne


Eu observo a tríplice disposição de temor, amor e esperança, que esta visita do Salvador desperta no seio do crente. Estes três formam, por assim dizer, uma corda no seio do crente restaurado, e um cordão de três dobras não se quebra facilmente.
  
1. Temor Filial
  
Em primeiro lugar, há temor – Como a noiva na parábola não sairia para desfrutar a comunhão com seu senhor, sem deixar a ordem para que suas donzelas apanhassem as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas, assim cada crente sabe e sente que o tempo da íntima comunhão é também o momento de maior perigo. Quando o Salvador foi batizado, e o Espírito Santo, como uma pomba, desceu sobre Ele, e uma voz, dizendo: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” [Mateus 3:17], foi, então, que Ele foi conduzido ao deserto, para ser tentado pelo Diabo; e exatamente assim é quando a alma está recebendo seus maiores privilégios e consolos, que Satanás e seus ministros estão mais próximos – as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas.
  
(1) O orgulho espiritual está próximo. Quando a alma está se escondendo nas feridas do Salvador, e recebe grandes sinais de Seu amor, então o coração começa a dizer: Certamente eu sou alguém – o quão longe eu estou acima da corrida diária dos crentes! Esta é uma das raposinhas que come a vida da piedade vital.
  
(2) Aqui há um valer-se de Cristo pelos seus consolos – olhando para eles, e não para Cristo – inclinando-se sobre eles, e não sobre o seu amado. Esta é outra das raposinhas.
  
(3) Existe a falsa noção de que agora certamente você deve estar acima de pecar, e acima do poder da tentação, agora você pode resistir a todos os inimigos. Este é o orgulho que vem antes da queda – outra das raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas.   Nunca esqueçam, eu vos suplico, que o temor é uma evidência da segurança de um crente. Mesmo quando vocês sentirem que é Deus quem opera em vocês, ainda assim, a Palavra diz: “operai a vossa salvação com temor e tremor” [Filipenses 2:12]. Mesmo quando a vossa alegria for transbordante, ainda assim, lembrem-se do que está escrito: “alegrai-vos com tremor” [Salmos 2:11], e novamente: Lembrem-se do cuidado da noiva, e digam: “Apanhai-nos as raposas, as raposinhas, que fazem mal às vinhas, porque as nossas vinhas estão em flor”.
   
2. Apropriando-se do Amor  

Mas se o temor cauteloso é uma marca de um crente em tal temporada, ainda mais é o apropriar-se do amor. Quando Cristo vier de novo dos montes da provocação, e revela-Se à alma livre e plenamente como sempre, de uma forma diferente do que o faz ao mundo, então, a alma pode dizer: “O meu amado é meu, e eu sou dele”. Eu não digo que o crente pode usar essas palavras em todas as estações. Em tempos de escuridão e em tempos de pecado a realidade da fé de um crente deve ser medida antes por sua tristeza do que por sua confiança. Mas eu digo, que nas temporadas em que Cristo revela-Se de novo à alma, brilhando como o sol atrás de uma nuvem, com os raios do amor soberano, imerecido – então nenhuma outra palavra satisfará o verdadeiro crente, senão estas: “O meu amado é meu, e eu sou dele”. A alma vê Jesus sendo um Salvador tão gratuito – tanto anseia que todos venham a Ele e tenham vida, estendendo Suas mãos o dia todo – não tendo nenhum prazer na morte do ímpio – pleiteando os homens: “Convertei-vos, convertei-vos, por que morrereis?” 

A alma vê Jesus ser um Salvador tão apropriado – a própria cobertura que a alma necessita. Quando ela primeiramente escondeu-se em Jesus, O encontrou adequado para todas as suas necessidades – a sombra de uma grande rocha em terra sedenta. Mas, agora, ele descobre uma nova adequação no Salvador, como Pedro, quando ele se cingiu com sua capa de pescador, e lançou-se ao mar. Ela encontra que Ele é um Salvador adequado para um crente caído; que seu sangue pode apagar até mesmo as manchas daquele que, depois de ter comido pão com Ele, ainda levantou o calcanhar contra Ele. A alma vê Jesus ser um Salvador tão pleno – concedendo ao pecador não apenas perdão, mas transbordando perdões imensuráveis – concedendo não somente a justiça, porém a justiça que é mais do que mortal, pois ela é totalmente divina; concedendo não somente o Espírito, mas derramando água sobre o sedento, e rios sobre a terra seca. A alma vê tudo isso em Jesus, e não pode deixar de escolhê-Lo e deleitar-se nEle com amor renovado e apropriado, dizendo: “O meu amado é meu”. E, se alguém perguntar, Como podes tu, verme pecaminoso, chamar tal Divino Salvador de teu? A resposta está aqui: Porque eu sou dEle. Ele me escolheu desde a eternidade, senão eu nunca O teria escolhido. Ele derramou Seu sangue por mim, senão eu nunca teria derramado uma lágrima por Ele. Ele chorou por mim, mas eu nunca teria suspirado por Ele. Ele procurou por mim, mais eu nunca O teria procurado. Ele me amou, portanto, eu O amo. Ele me escolheu, por isso eu sempre O escolho. “O meu amado é meu, e eu sou dele”. 

3. Esperança Orante   

Mas, por fim, se o amor é uma marca do verdadeiro crente em tal temporada, assim também é esperança em oração. Foi a palavra de um verdadeiro crente, em uma hora de comunhão elevada e maravilhosa com Jesus: “Senhor, bom é estarmos aqui” [Mateus 17:4]. Meu amigo, você não é crente se Jesus tem nunca Se manifestou à sua alma em suas devoções secretas – na casa de oração, ou, no partir do pão – em forma tão doce e avassaladora, que você clamou: “Senhor, é bom para mim estar aqui!” Mas, embora isso seja bom e muito agradável, como a luz solar para os olhos, ainda assim, o Senhor vê que não é mais sábio e melhor sempre estar ali. Pedro tem que descer novamente do monte da glória, e combater o bom combate da fé em meio à vergonha e afronta de um mundo frio e desdenhoso. E assim deve cada filho de Deus. Nós ainda não estamos no céu, o lugar da visão aberta e gozo eterno. Esta é a terra, o lugar da fé, da paciência, e da esperança para o céu indicado. Uma grande razão pela qual o júbilo próximo e íntimo do Salvador não pode ser constantemente efetuado no seio do crente é para dar espaço para a esperança, a terceira corda que forma o cordão de três dobras. Até mesmo os crentes mais esclarecidos estão andando aqui em uma noite tenebrosa, ou crepúsculo, no máximo; e as visitas de Jesus para a alma apenas servem para fazer a escuridão circundante mais visível. Mas a noite é passada, e o dia é chegado. O dia da eternidade está rompendo no oriente. O Sol da Justiça está apressando-se a subir sobre o nosso mundo, e as sombras estão se preparando para fugir. Até então, o coração de cada crente verdadeiro, que sabe a preciosidade da estreita comunhão com o Salvador, suspira a fervorosa oração, que Jesus frequentemente venha de novo, assim, orvalhante e subitamente, para ilumina-lo em sua sombria peregrinação. Ah! Sim, meus amigos, que todo aquele que ama ao Senhor Jesus com sinceridade, junte-se agora à bendita oração da noiva: “Até que refresque o dia, e fujam as sombras, volta, amado meu; faze-te semelhante ao gamo ou ao filho dos veados sobre os montes de Beter”. 

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Este texto foi extraído do livro “A Voz do Meu Amado”, de Memórias e Lembranças do Reverendo Robert Murray M´Cheyne, por Andrew Bonar. Primeiramente publicado em 1844, (reimpresso, Edimburg: Oliphant, Anderson, & Ferrier), p. 431-440. 
Fonte: Reformation-Scotland.org.uk 
Tradução: OEstandarteDeCristo.com 

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